Citânia de Sanfins

PAÇOS DE FERREIRA (Portugal): Citânia de Sanfins.

Localizada na região de Paços de Ferreira, a Citânia de Sanfins é um dos maiores povoados fortificados alguma vez escavados entre nós.

Genericamente inserido na ampla, e algo vaga, denominação de “Cultura Castreja do Noroeste”, as sucessivas etapas de edificação desta Citânia terão ocorrido entre o século V a.C. e a segunda metade do século II a.C., numa altura em que se observaram profundas transformações no seio das comunidades da zona litoral entre o Douro e o Minho, enraizadas nas tradições do Bronze Final. Na verdade, um dos aspectos que mais fascinará o estudo destes sítios será, precisamente, a constatação de uma disparidade de costumes, observáveis através da presença de variados artefactos, móveis ou imóveis, e que, no conjunto, nos revelam o eclectismo dos contactos exógenos que as suas populações mantiveram ao longo dos séculos, fruto das mutações operadas um pouco por todo o território europeu de então.

Embora a maior parte das estruturas que se observam actualmente tenha sido edificada já durante o período da romanização desta região, a maioria dos aspectos que caracterizam este povoado fortificado poderá ser imputável a épocas bem mais anteriores. Localizado numa plataforma elevada, com um bom domínio visual sobre a paisagem envolvente, esta citânia era defendida por três linhas de muralhas (reforçadas a Oeste e a Sul por uma muralha exterior e a Norte e Sul por um fosso) erguidas com o material pétreo típico da zona, ou seja, com blocos graníticos. E seriam estes mesmos panos de muralha que acabariam por delimitar as grandes áreas familiares, no interior das quais se edificaram as típicas habitações – também elas com muro granítico, erguido até, sensivelmente, um terço da sua altura real -, de planta predominantemente circular.

Esta última, constitui, na verdade, um dos principais traços característicos da casa castreja da II Idade do Ferro do Noroeste Peninsular. Maioritariamente circular, a habitação castreja tinha cerca de 5 metros de diâmetro, e as paredes eram constituídas por duplo paramento, um interno, e outro externo. No interior de casa, e para além da lareira, observa-se a presença de um buraco centralizado, no qual se colocava o poste que sustentava a cobertura, de materiais perecíveis e de forma cónica, como, aliás, se deduz da planta circular da habitação. Além disso, eram adossados dois muros à porta de entrada, de maneira a delimitar um átrio onde decorreria parte significativa das actividades domésticas. Algumas destas habitações formariam conjuntos mais alargados estruturados, aos quais pertenceriam outras estruturas de características comunais (possivelmente também para guardar gado, que, em juntamente com a agricultura, perfaria uma das bases essenciais da economia destas gentes), e que, grosso modo, equivaleriam a diferentes “famílias alargadas”, perfazendo, elas próprias, o conjunto mais abrangente da Citânia, no seu todo.

Diverso foi o espólio encontrado durante as escavações, cujo notório eclectismo atesta, quer a manutenção de contactos com as zonas meridionais ibero-púnicas – observáveis na aplicação de algumas técnicas e gramáticas decorativas -, como, ainda, com regiões do Continente Europeu, como no caso específico da própria planta circular das suas habitações.

Para além destes elementos dever-se-á realçar a presença da denominada “estatuária de guerreiros”, um dos elementos mais significativos e peculiares da área meridional castreja. Considerados durante muito tempo por alguns autores como autênticos monumentos funerários, terá sido a descoberta in situ de um dos seus exemplares, implantado num dos rochedos que dominava a entrada principal da Citânia de Sanfins, que levou os investigadores a equacionarem a sua utilização enquanto evocações do heroísmo dos seus ancestrais, possivelmente relacionado com um certo culto aos “chefes” / antepassados, talvez compreensível num contexto de predomínio das denominadas “chefaturas”.
[AMartins, Igespar]

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